24 agosto 2007

Os inúteis

Os inúteis não têm um letreiro nas costas ou um I de inúteis na testa. Vão ao cinema, jantam fora e vão às compras. Os inúteis têm família e vão ao Algarve molhar os pézinhos. Andam de autocarro, de metro e até podem ser cordiais para os demais, podendo dar lugar à sra grávida ou abrir a porta à avó. Têm um ordenado e passeiam-se pelos centros comerciais.

Os inúteis andam no meio de nós, portanto, como os reconhecer?

A forma mais fácil é ouvir com atenção o seu discurso. O discurso do inútil começa com “Em principio”, acaba com “Não sei” e tem pelo meio um “talvez”. Acompanhado desta pérola discursiva que mete a um canto o sermão de Sto António Aos Peixes, o inútil tem trejeitos. Encolhe os ombros várias vezes, coça a cabeça, põe a mão no queixo e esfrega as mãos como se de uma lamparina mágica se tratassem.

O inútil é exímio na arte das interjeições e das frases incompletas. Todo o discurso do inútil pode-se resumir a um simples hummmm ... pois... mas repare.... ah.... certo, certo .... realmente ....

O inútil brilha em todo o seu esplendor durante uma reunião de trabalho. Sim, porque os inúteis adoram reunir-se para discutir assuntos importantes, especialmente relacionados com o seu trabalho, mas acredito que uma simples reunião de condóminos seja igual. Uma típica reunião de inúteis dura horas infinitas e a agenda da reunião (quando a há) não é respeitada.

Os inúteis, quando reunidos, mantêm o discurso intermitente o que, para o olho e ouvido não treinados, pode parecer que realmente estão a compreender-se mutuamente. Nada poderia ser mais falso! E o que os denuncia é a expressão de gazela aparvalhada que anuncia o vazio cerebral e potencia o esvaziamento do cérebro dos restantes.

Um horror.

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